domingo, 6 de agosto de 2017

Goo Goo Dolls| Quando a saudade tem cheiro


Nas duas últimas semanas eu tenho tentado digerir uma série de sentimentos e experiências. Como já havia dito antes, provavelmente a música é o que me ajuda a organizar essas ideias. Às vezes eu acho que elas não ajudam essa organização pondo ordem, pois parecem remexer mais com tudo que já estava inquieto. Mas elas ajudam a encontrar palavras, a dar sentido poético a um mar de abstração. É como ouvir algo e pensar “É isso! É exatamente isso que eu estou sentindo. ”

Eu tenho 25 anos, mas posso dizer que já deia volta no quarteirão da vida usando salto alto. Essa vida já foi dolorosa um bocado. A pior coisa que existe é a gente se acostumar com a dor, e simplesmente achar ela normal e agradecer pelas pequenas alegrias esporádicas. Já tive perda que levou parte de mim junto, já passei por desilusões e a minha cara já foi quebrada e rebocada algumas vezes, mas nada nunca foi o suficiente para me fazer acreditar menos no amor e nas pessoas. É algo quase instintivo e acho que o dia que eu perder isso já não serei mais eu mesma.

E em um misto de entrega e medo de me machucar eu vou vivendo. Tudo muito a flor da pele. Nunca soube medir nada. Sempre fui do muito temendo ser insuficiente. E esse muito sempre teve pressa, uma rapidez e um movimento de um sentimento que não cabe dentro de mim. Se reprimir, morro sufocada. E para não morrer, escrevo.

Se o amor não for querer viver no cheiro do cabelo de alguém, porque isso cheira a um lar para você eu não sei o que é amor. Amor é um abraço que não te deixa ir, é um beijo que te faz esquecer a dor. Amor é chegar em um aeroporto lotado e teus olhos acertarem diretamente naquele par de olhos verdes nos quais você mergulharia. O amor te tira da inercia, te coloca em movimento. O meu amor me tirou da minha zona de conforto, girou meu mundo em 180º e me fez sentir a vida novamente.

Sendo assim, eu não me importo com que pode acontecer na semana que vem, pode ser que algumas coisas não surjam para ficar. Pessoas não são souvenirs, não podemos prende-las. Se um dia elas precisarem ir, elas irão e isso não fará que todo o amor seja menor. O amor é a capacidade que o outro tem de melhorar sua vida pelo simples fato de existir. Por isso mesmo não existe arrependimento em amar, porque tudo que de fato é verdadeiro vale a pena.

 Certa vez, uma grande amiga me disse que eu precisava abrir mão do amor platônico. Eu a entendi. Ela temia que eu me machucasse, porque ela se referia ao amor platônico do medievo, aquele amor Tristão e Isolda. O amor que dói pela ausência.  Mas não posso mudar minha natureza, por mais que isso possa me custar algumas lágrimas hipoteticamente.

Na semana passada eu fiz uma playlist com algumas canções que se tornaram uma trilha para minhas férias. Todas elas tinham algo em comum, foram músicas que cansei de ouvir durante a infância e adolescência e que me reencontraram em meio a um lugar onde eu me reencontrei com um sentimento muito especial. Uma música em especial eu deixei de fora porque o que ela me causa não caberia em poucas linhas daquela outra publicação.

Em 1997, a produção do filme Cidade dos Anjos chamou os caras do Goo Goo Dolls para fazer parte da trilha sonora. John Rzeznik, líder da banda, escreveu uma canção inédita para essa soundtrack. Até então a banda fundada por Rzeznik seguia os passos do movimento Grunge e fazia um som típico do Rock alternativo das bandas americanas surgidas no final dos anos 80 e começo dos anos 90.

Por capricho do destino, foi com Iris que a banda alcançou a fama a nível mundial. Eu digo capricho porque Iris é quase uma balada romântica, algo entre o indie rock e o soft rock (também conhecido como adult contemporary). A letra segue o contexto do filme, onde o personagem principal se vê entre o amor e a eternidade. O nome da música seria uma referência a Iris DeMent, uma cantora folk norte-americana que fez sucesso nos anos 90. No embalo do sucesso, o Goo Goo Dolls incluiu a música no álbum Dizzy Up the Girl em 1998.

And I'd give up forever to touch you
'Cause I know that you feel me somehow
You're the closest to heaven that I'll ever be
And I don't want to go home right now

Eu procrastinei para escrever esse texto, e agora que estou aqui sentada tentando fazer minhas palavras terem algum sentido percebo que não era apenas uma questão de preguiça. É que tudo ainda tá muito sensível. Então desde já me perdoem, eu não sei se esse texto de fato vai fazer sentido para vocês, mas pra mim ele é uma tentativa de descomprimir uma gama de emoções que estão abarrotadas aqui dentro.

O amor nos é apresentado de diversas formas. A gente pode se preparar a vida toda ou simplesmente ignorar a sua existência, mas se tiver de ser, não tem racionalidade certa. Vem de onde você menos espera. Do jeito que você menos pensa. Para mim veio aleatoriamente, em uma mensagem despretensiosa, em um dia qualquer.

And I don't want to go home right now
And all I can taste is this moment
And all I can breathe is your life
And sooner or later it's over
I just don't want to miss you tonight

Eu comecei pensando sobre amor, mas no momento todo o amor do mundo que existe em mim se depara com uma convidada indigesta que costuma acompanha-lo. E eu faria qualquer coisa que fosse possível para não ter que a sentir.


Saudade é uma palavra de sentido profundo e não traduzível. A gente até tenta explicar, expressar, mas não dá. Saudade é uma palavra que mesmo não se traduzindo para outro idioma pode, ainda sim, ter endereço, cheiro e voz. Saudade pode ter nome e sorriso. Saudade pode tá lá do outro lado do continente, ou dentro da gente. Eu tenho saudade e é irremediável. 

domingo, 30 de julho de 2017

PLAYLIST| Sons de uma playlist que já foi mixtape de alguém



Eu olhava para a estrada e era tão surreal que finalmente eu tinha criado coragem pra tá ali. Quem convive comigo sabe o quanto foi sair da minha zona de conforto e vencer alguns medos que a gente alimenta e pega pra criar desde muito cedo. De fato, alguns são bem reais e se reafirmam dentro da dinâmica da visita ao Tio Sam, mas outros foram se confirmaram como mito, verdadeiras lendas urbanas no nosso imaginário.

Não seremos aqui nesse blog cuzão a ponto de ficar medindo e dando impressões da cultura alheia, pois não existem parâmetros para tal. A única coisa que sei, é que duas semanas depois eu já estava em crise de abstinência pelo feijão/arroz e farofa de bacon, coisas simples, mas que já ligam o alerta para a saudade das pessoas que conversam em fila de supermercado, os vizinhos que gritam/arengam e de gente que sorri na rua sem nunca ter lhe visto antes. Casa é algo muito sério.

Os históricos estados de Maryland e da Virginia foram meu chão. A odisseia até chegar lá - por odisseia leia-se 9 horas de conexão no aeroporto de Tocumen, no Panamá – eu deixarei para contar outra hora.

A família Kocinski se tornou minha família. Sabendo que o privado é sagrado dentro de uma sociedade como a deles, ser recepcionada e acolhida por eles (independentemente da situação imbuída) foi muito especial e também gostaria de registrar isso aqui no meu lugar de memória e de fala.

Talvez seja algo muito simples para nós e dentro da nossa lógica receber alguém para conversar e comer uma pizza, mas quando isso adentra todo um imaginário permeado por uma lógica cultural distinta e mesmo assim essas pessoas lhe deixam entrar e compartilhar com elas algumas histórias, então devemos ser gratos. Acho que só o amor faz isso. Faz com que as pessoas deixem as armaduras e o prejulgamentos caírem e despidas de qualquer pré-juízo deixarem ser vistas, mostrando assim a alma e amago do que era antes desconhecido. Aprendi com eles, que amor e respeito são gêmeos univitelinos.

E foi nas estradas que ligam Maryland e Virginia que eu fiz as pazes com algumas memórias. Alguém me disse que eu deveria aproveitar todo esse momento da vida como um presente, mas isso não era sobre coisas materiais, mas sobre ver beleza nas coisas e até redescobrir o que se perdeu lá trás. Em todas idas para Richmond e voltas para Leonardtown, a rádio Sirius estava sintonizada no canal de rock dos anos 90 e “early” 2000. Músicas familiares, mas que nunca me causaram nostalgia, já que data um período que eu tentei passar um “errorex ” mental. Eu não reinventei essas memórias, eu criei novas e me deixei ser marcada por elas.

Canções que em algum momento alguém esperou o exato momento da rádio para apertar play/record e montar uma mixtape. Digo isso porque eu mesma cansei de gravar música da rádio Transamerica. Final dos anos 90 e começo dos anos 2000 pra uma criança/adolescente pobre não tinha essa de comprar cd com facilidade, muito menos a comodidade do mp3. Quem quisesse ficar repetindo aquele som maneiro da rádio, tinha que pôr o toca fitas para trabalhar. Aprendi com meus primos mais velhos, foi uma contribuição do bem que eles fizeram em meio a todas as cagadas.

Poderia muito bem ter sido uma viagem com minha fita de adolescência tocando na k7, mas foi a playlist de um canal de uma rádio digital via satélite em meio a railway 95. Não foi o som da casa da minha tia, foi uma roadtrip com o amor da minha vida.

Chris Cornell foi para o outro plano continuar a jornada dele, mas em 2002 já com o Audioslave lançou um álbum homônimo ao nome da banda e que tinha como umas das faixas Like a Stone. A música tem o sentimentalismo que remonta o grunge que Chris ajudou a fundar, mas com uma pegada sintética e tem como base o riff inconfundível de Tom Morelo. A letra poderia ser o epitáfio de Chris. Um homem se vê sozinho em sua casa, não tem mais seus amigos e familiares. Todos morreram. A letra fala sobre a saudade que ele sente e o quanto ele quer reencontra-los. A explicação na época foi dada pelo próprio baixista e um dos autores da letra, Tim Commerford.  

In your house I long to be
Room by room patiently
I'll wait for you there
Like a stone
I'll wait for you there
Alone

No ano em que nasci o Radiohead lançou seu primeiro single. Era 1992 e Creep já ganhava as rádios inglesas, quer dizer nem todas. O som foi considerado muito depressivo e a BBC Radio 1 se negou a tocar. A verdade é que essa característica melancólica marcou muitas canções daquele período, era a tag de uma geração que até hoje ainda se encontra em meio a doses de Sertralina.

When you were here before
Couldn't look you in the eyes
You're just like an angel
Your skin makes me cry


Dolores O'Riordan voltou ao um tema que vira e mexe as bandas irlandesas brilhantemente trazem à tona. O conflito sociopolítico da vizinha Irlanda do Norte é do que se trata a letra de Zombie. As questões na Irlanda do Norte estão para muito além da explicação religiosa, é na verdade um duro entrave entre os súditos da Grã-Bretanha e os que nunca quiseram se curvar a dominação inglesa. Ser católico ou ser protestante é praticamente um aceno para quem não está de acordo com os ingleses e quem está. A religião como representação. Um país dividido, com feridas profundas e que insistentemente ainda se depara com mortes, agressões e a segregação. Zombie é marcante, não apenas por sua letra, mas pela interpretação de Dolores. O ano foi 1994.


It's the same old theme since 1916
In your head, in your head
They're still fighting


Falar de Guns nos dias de hoje se tornou algo bem fora de mão. Na verdade, eu ainda não entendi o porquê se tornou quase uma piada dizer que se gosta ou que algum dia se gostou do som dos caras. Não sei se eu cresci em um universo alternativo, mas todo mundo ouvia muito Guns ao meu redor. A guitarra de Slash e a voz de Axl sempre foram recorrentes aqui. Axl e Izzy Stradlin foram os autores de Don’t Cry, que ao lado de November Rain e Estranged formam uma trilogia sobre o relacionamento conturbado de Axl e Erin Everly (Sweet Child O'Mine e This I Love foram inspiradas em Everly também). A gente se machuca em relacionamentos, mas machucamos bastante também. Eu não sei se vocês dividem essa opinião comigo, mas dói tanto ver quem a gente ama chorar. Me sinto um embuste quando isso acontece. Foi uma das músicas mais tocadas de 1992, o ano em que nasci.

Talk to me softly
There's something in your eyes
Don't hang your head in sorrow
And, please, don't cry


Um ano antes, 1991, o R.E.M dominou as paradas norte-americanas com Losing My Religion. A tradução literal não explica e nada tem a ver com o sentido buscado pelos autores para a música. Quando Bill Berry, Peter Buck, Mike Mills e Michael Stipe compuseram a faixa pra o álbum Out of Time, estavam falando sobre perder a cabeça, a civilidade (Losing My Religion é uma expressão do Sul dos EUA se referindo aos sentidos já citados). Michael Stipe já falou sobre isso em uma entrevista para o The New York Times. Era uma música patinho feio, um baladão pop que destoa do trabalho do R.E.M, mas fez um sucesso danado nos anos 90, tendo o Grammy Awards como umas das premiações recebidas.

That's me in the corner
That's me in the spotlight
Losing my religion
Trying to keep up with you
And I don't know if I can do it


Liam Gallagher é persona non grata do mundo da música. O Oasis não é uma das minhas bandas favoritas, porém acho o som dos caras bem honesto. Wonderwall, por sua vez, é uma obra prima. É como o gol do Gilberto na final do campeonato Pernambucano 2011, um lapso de genialidade. Na verdade, eu estou sendo injusta e falastrona. A letra foi escrita por Noel Gallagher e se trata de um amigo imaginário que virá salvar o indivíduo (eu lírico). Eu já coloquei essa música em uma playlist das indigestas e até já falei para não atrelar essas canções a pessoas, mas é impossível. Músicas, assim como sabores, toques e cheiros são marcadores. Te fazem lembrar de dias, momentos e sorrisos. Não tem jeito.


And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding
There are many things that I
Would like to say to you, but I don't know how



Em 1995, Gwen Stefani e Tony Kanal terminaram um relacionamento de 7 anos. A separação tomou corpo e notas na canção Don’t Speak, esctira por Gwen e o irmão Eric. Foi a terceira faixa do álbum Tragic Kingdom a se tornar um single. Eu já chorei ouvindo essa música. Nem sei porque resolvi coloca-la nessa lista, porque já estou chorando novamente.

You and me
We used to be together
Everyday together always
I really feel
That I'm losing my best friend
I can't believe this could be the end



Como já disse, não existe parâmetros. Mas dessa vez me pego falando sobre a experiência. Não o fato de ser uma viagem, mas de pegar a estrada, de segurar a mão de alguém e estar feliz o suficiente pra não se importar com o que pode acontecer no minuto seguinte. Foi um presente ter vivido tudo, de ter recebido tanto amor, de todas as formas que esse amor se apresentou a mim nessa jornada. Eu me sinto grata. Escrever sobre isso já me faz sentir saudades, mas me coloca também como apreciadora de momentos que só parecem reais em minha mente quando os organizo. Quando os traduzo em sons. 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Rihanna | A culpa não é nossa


Quando eu tinha 5 anos de idade a vida se apresentou para mim. Sem pedir licença, sem sutileza, apenas veio e deixou em mim o medo. O medo se tornou algo intrínseco a mim. Algumas pessoas falam que o medo é uma demonstração de que existe vida pulsando, mas para mim o medo é a tensão de não querer ser ferida, o pavor da reprovação de um olhar, o temor de um gesto ou uma palavra que reprime. O medo é como tocar uma ferida aberta, que por mais que se aproxime com toque cuidadoso, a dor ainda vai estar lá. Esse pavor é uma dor que calcifica.

A adolescência veio, e toda a ferida que já estava aberta apenas ganhou profundidade. Essa dor que se aprofundou, tomou contorno e preenchimento de melancolia. Você senta e passa a apenas aceitar, o que não a vida, mas o que momento oferece. A mente cria estratégias para sobreviver em meio ao caos, você entra em estado de automação. Replica gestos, falas e sorriso porque no fundo, por mais que não pareça, você quer sobreviver.

Quando tudo se torna apenas uma questão de sobrevivência o prazer dá lugar a uma couraça que tenta desesperadamente servir como cobertura para todas essas feridas que nos marcam ao longo do caminho. Tudo se torna uma questão de viver defensivamente, se protegendo, nem que para isso seja necessário mostrar os dentes e ferir alguém. Não passamos mais a viver, estamos só nessa guerrilha emocional, que é um processo cíclico e autodestrutivo.

And you got me like, oh
What you want from me?
(What you want from me?)
And I tried to buy your pretty heart
But the price is too high

Rihanna transpões tudo isso para uma música. Em seu oitavo álbum de estúdio, Anti, ela em parceria com Fred Ball e Joseph Angel lançou Love on the Brain. A décima primeira faixa do álbum foi também o 4º single da barbadense para esse trabalho lançado em 2015. Pelo que tudo indica, todo trabalho seria acompanhado de vídeos e reflexões da própria Rihanna que ajudariam a interpreta esse lançamento, mas o vazamento do material na internet interrompeu esse processo criativo da artista. Ficamos então sem o vídeo que fecharia esse processo de composição e interpretação da música. Mas a letra toma vida e folego na mente de cada um que já viveu ou vive o que ela está cantando.

Love on the Brain é sobre uma relação abusiva. Na letra ela deixa claro os vários estágios desse abuso, como a forma que sua vida está atrelada a dele (No matter what I do, I’m not good without you) e como isso a leva a aceitar a dor (So you can put me together and throw me against the wall). Ele parece como um personagem que vem e vai, aparece quando é conveniente a ele, mas a prende emocionalmente e a usa como objeto de satisfação pessoal.

E por mais que se tente ser didática, é difícil explicar para quem está de fora o mecanismo de atuação de um abuso na mente de quem sofre. Talvez algumas pessoas apenas se perguntem a motivação da permanência em uma relação abusiva, o que essas pessoas não entendem é como o abusador se utiliza de mecanismo para atrelar aquela pessoa psicologicamente a ele através da baixa autoestima, medo e inversão. Isso não ocorre apenas em relacionamentos abusivos, mas também em outros tipos de abusos, onde quem sofre o abuso não reage ou denuncia por se ver em uma dessas situações.

That’s got me feeling this way
(Feeling this way)
It beats me black and blue, but it fucks me so good

Essa dor serve como estopim de uma crise de ansiedade que toma o folego. Esse medo fomenta uma depressão, o autoflagelo da mente que carrega em si todo peso do mundo. E você se afunda, ficar só consigo mesmo se torna a solução viável de quem não aguenta mais tudo isso. Você ali, encolhido, fechado em sua concha é intocável no estratagema da sua consciência.  O que você não se dá conta é da força que carrega em si. Você sobreviveu a tudo isso e tem o direito de seguir em frente. Existe uma força interna muito maior que a dor, e essa força nos mantém vivos.


Em um dos vídeos de lançamento de Anti, Rihanna aparece ao redor de uma criança que interage com ela e lhe entrega uma coroa. Todos temos uma criança que nos espreita. A nossa criança interna que foi machucada, abatida e que sofreu com a apresentação dessa vida para ela. Alguém muito especial me disse ”olha, antes essa criança estava sozinha e não tinha como se defender. Agora essa criança tem você e você não precisa mais ter medo. Você tem como se defender”. Toda ansiedade, melancolia e o temor de enfrentar a vida não são mais um perigo real, aquele risco ao qual ficamos expostos, mas sim a memória de todo sofrimento que já foi enfrentado.

domingo, 7 de maio de 2017

Luíza Possi | Som de amor próprio


Tudo que é ruim passa, mas o que é bom é datado também. A diferença são as memórias que ficam. O que foi ruim vai sem deixar saudades, porém ficam marcas profundas na maioria das vezes. O que foi bom, do nosso agrado, fica salvo na lembrança como o indicio da felicidade. Fica no exalar do perfume, na letra da canção, numa camiseta amassada no fundo do guarda-roupa, ou simplesmente no instante silencioso que traz como um flash aquilo que se viveu. Mas não sejamos reféns do passado.

Escrevo esse texto antes de qualquer coisa para mim mesma. Esses dias me peguei remoendo memórias de uma relação de uns 3 anos atrás, e isso martiriza um bocado, porque a gente se pega idealizando com o nosso famigerado “e se..?”. E se um caralho, meus amigos. Sejamos gratos por cada coisa boa que nos ocorre, mas não os idealizemos, porque a probabilidade de “quebração” de cara é enorme. As impossibilidades das relações e das oportunidades que não rolaram tem seus porquês. Se você tentou o melhor que poderia naquele momento e as coisas simplesmente não aconteceram, então aquilo não era seu, aquele não era o seu momento. A gente não precisa ser religioso pra acreditar que tem coisa que não pode ir pra frente por simplesmente não ser a hora de acontecer ou não ter que acontecer.

E com relação as experiências ruins, não precisamos nos privar do sofrimento. Amoitar sofrimento é como tentar conter o curso de um rio. Eu sou a maior especialista em amoitar sentimento que você respeita. Minha mãe costuma dizer que eu me fecho em uma concha. É horrível viver assim, gera uma amargura e nos impede de enxergar as possibilidades nos acontecimentos. Fazer de conta que coisas ruins não aconteceram não pode ser uma alternativa. Se permita sentir, não tenha vergonha disso. Tenho tentado aprender a viver essa permissão.

Nunca vi chorar tanto por alguém
Que não te quis, deixe estar
Que ele vai voltar, louco pra te ver
Então verá, que você cresceu
E apareceu em seu lugar
E hoje está louca pra sair
Sem saber que horas vai voltar

Já escrevi sobre o 5 a Seco em outra postagem, eles estão aqui novamente através da letra de Deixa Estar, mas a voz que deu vida a essa canção na minha memória foi Luíza Possi. A música é de 2011, Luíza colocou sua pegada em cima da letra sempre realista dos caras do 5 a seco. O que eu particularmente gosto das letras deles é que não tem muita firula, sem invenção, é na lata. E Luíza é poder, né mores? Essa música encaixa perfeitamente nas propostas musicais que a gente já conhece dela.

Deixa estar é aquela sacudida de poeira que todo mundo precisa na vida. É um diálogo, daqueles que só uma pessoa que tá de fora da situação pode jogar umas verdades na nossa cara. É certo que muitas vezes a gente pega ranço dessas verdades, porque de fato elas estão ligadas a coisas que são obvias para gente também. É, muitas vezes a gente permanece na merda pelo medo de dar o passo a diante por mais que a relação já esteja desgastada, ou já seja algo fadado a dar errado. Todo mundo vê, sabe, comenta, te fala, aconselha, mas não tem jeito. Você, por orgulho ou pretensão, não toma uma decisão de findar essa marmita de ontem que se tornou esse relacionamento.

Eu quero mais é te ver na pista da vida
Dançando sem parar
Eu quero mais é sumir com as pistas
De onde ele foi parar

A vida tá ai pra ser vivida. Com as amarguras e com as delicias de cada instante, se apresenta como uma dádiva diária. E temos sempre que desejar e experimentar essa entrega. Na privação do ser, deixamos passar o que de fato importa: a eternidade de cada momento. Que nos joguemos mais nas experiências. Por esses dias, me bateu uma aflição quando percebi que eu não tenho uma bucket list. Deve ser meu sol em Touro e ascendente em Capricórnio. Mas na verdade, eu sempre pensei nos meus desejos como coisas que para muitos poderiam ser triviais. O conforto de um refúgio, o dinheirinho para descobrir novos lugares e me jogar em paradas gastronômicas e ter o cheirinho de um outro alguém no lado esquerdo da cama. Mas até esses sonhos, ditos simples, já são motivos para mover e levantar para enfrentar a jornada todos os dias. A gente se motiva com o que tem.
A gente gosta de complicar. Isso é tão intrínseco a nossa existência. Complicar é como um velho desafio contra nós mesmos, onde tentamos nós provar que estamos errados. Olha que parada louca. Temos tudo que precisamos, mas nos falta a humildade de entender e assumir que erramos. Não tem nada de vergonhoso em assumir que precisamos dar meia volta ás vezes. A gente tem que admitir que entramos em furadas, o vergonhoso é não se permitir sair delas. A gente tem muita pretensão em achar que podemos moldar as pessoas aos nossos gostos e que elas vão mudar sempre porque acreditamos ser o melhor para elas. Isso só prova o quanto achamos que somos mais do que realmente nossa mãe pariu.

Se ele não ligou, nunca te escreveu
Não vai prestar, chega aqui
E eu vou te falar o que você sempre quis ouvir
Deixa isso pra lá
Que isso não pode ficar assim
Põe um fim
Ele vai voltar louco pra te ver
E então verá


O que falta é amor próprio. Não podemos confundir o lado pretensioso que temos com amor próprio. Tá cheio de gente por aí que acha que é a dose de dipirona da vida de alguém, mas que na verdade não consegue lidar nem com a própria realidade. Rupaul já nos ensinou que “if you don't love yourself how in the hell you gonna love somebody else”. Mas é uma peleja diária, amor próprio e aceitação não brotam no canequinho com algodão e broto de feijão, mas é um exercício. Tem que começar em não remoer os fracassos. Se vier na cabeça, se bater na porta, se passar na rua ou ouvir na rádio, simplesmente deixe passar. Tudo passa.  

segunda-feira, 27 de março de 2017

Carla Morrison| Devagar para não se machucar


Minhas passagens pelo blog estão se tornando cada vez mais inconstantes. Acho que esse ano vai ser cercado dessas inconstâncias. Os dias se tonam mais curtos, parece que as horas trabalham contra e que a cada dia as obrigações se multiplicam. Esse blog nunca foi uma obrigação, nasceu no final da minha adolescência como uma forma de expressar os sentidos que as canções sempre despertaram em mim. Nas primeiras postagens, ainda era uma adolescente tentando encontrar sentido, hoje eu posso sentir como cada texto é como uma imagem do meu estado de espirito em cada uma dessas fases. Essa página é marcada por três grandes hiatos, que caracterizam de forma interessante quem eu sou exatamente agora e talvez, distinto do que eu serei amanhã.

Na primeira parte eu era uma adolescente descobrindo as coisas e a mim mesma. Meus devaneios beiravam a arrogância, aquele jeito de saber tudo que todo adolescente arrota na cara do mundo. Nessa época descobri o amor, da forma mais inusitada possível. Enlouqueci e não cabia dentro de mim, era algo grande demais para parar aqui dentro. Foi transposto e marcou minha pele para sempre. Nessa época eu nem conseguia pensar em escrever e foi a primeira pausa do blog. O desencanto me fez voltar a escrever um único texto, só para lavar a alma e desabafar. Me desgostei e entrei em um looping de “tanto faz” e fiquei estagnada durante quase 3 anos. Eu poderia ter ficado nesse “tanto faz” se a vida não tivesse me pregado uma peça. Eu não chamaria de descaminho, mas sim de “recaminho”. Tudo que aconteceu em 2015-2016 serviu para de alguma forma me mostrar novas possibilidades e crescer a vontade do reencontro comigo mesma.


Alguna vez camine sin pies
Deseando poderlos obtener
Y al mirar hacia atrás
Pude ver y encontrar
Que la decisión que di
Fue arrastrándome
Hasta poder llegar aquí
Y pude adivinar que
Me hacía falta tu luz...

 Há algum tempo não ouvia Carla Morrison. Ela já apareceu em outros textos, principalmente na época que o blog ainda estava começando. A Carla foi um achado, até hoje não lembro exatamente como comecei a ouvir o Aprendiendo a Aprender, que foi o primeiro EP dela. Na época, eu ouvia muita música indie mexicana por intermédio de Agatha (amiga dos melhores encontros em aeroporto que você respeita) e acredito que foi assim que comecei a dormir ouvindo Buena Malicia.

O segundo EP da Carla foi produzido por sua contemporânea e companheira da cena musical mexicana Natália Lafourcade. Mientras tú dormías é composto de 8 canções autorais, sendo uma escrita em parceria com Lafourcade (Pajarito del Amor). Assim como no primeiro álbum, Morrison demonstra uma delicadeza musical que nos dias de hoje é rara para o mercado fonográfico.

Volví a reconocer mi piel
Sentí brazos
Y el tiempo recorrer
Y volvió a mí la fe
Y reconocí tu luz

Tu luz é a sexta faixa do disco. Uma canção cheia de sutileza, violão, piano, algum instrumento percussivo e a voz de Carla. A melodia parece despretensiosa, mas traz consigo uma letra que desperta memorias e nos deixa vislumbrar um novo caminho.
Por esses dias a ficha caiu. Eu acredito que boa parte das pessoas ficam se enganando, achando que podem lidar com as dores sozinhas e tendem a prolonga-las e tomar o caminho de se afundarem junto com suas demandas não resolvidas. A gente fica empurrando com a barriga e se contentando com os mecanismos que nosso cérebro vai criando no meio dessa jornada. É como se sentar e apenas esperar a vida passar.

As nossas feridas são inúmeras, desde as que vamos acumulando desde a infância, até as frustrações diárias da idade adulta. A sensação é de nesses momentos nos roubassem um fiozinho de esperança que acalentávamos. Imagina, na infância todos temos um mundo idealizado na mente, onde nossos pais são nossos heróis e parecemos indestrutíveis. Bem, quando criança acreditamos até que nossos brinquedos são eternos, até que um adulto nos avisa que temos que ter cuidado para não o quebrar.  E aos poucos a inocência vai se esvaindo, por diversos motivos e temos que começar a enxergar um outro mundo, onde a superficialidade é quem dá o tom.

A gente se protege do jeito que dá. A gente se tranca, se resguarda e até vendemos a imagem da rede social que todos querem ver. Mas isso cansa, desgasta profundamente e cria feridas tão difíceis de lidar quanto as que já causaram esse estrago. A gente se afunda.
Semana passada alguém muito especial me disse para respirar, para ir com calma, devagar para não me machucar. Por algum motivo, desde então isso não saiu da minha cabeça. O quanto a gente perde de nós mesmos na pressa dos dias e na voracidade dos prazos. A gente vende a alma por coisas que enchem currículo mas esvaziam nossa singularidade. O que de fato gostaríamos de estar fazendo agora? Eu tenho alguns vislumbres. Continuar dando aulas, ter tempo para me aprofundar em assuntos ligados a Astrologia, quem sabe estudar mais o Tarô Mitológico que anda mais guardadinho do que o desejado...

Talvez tudo isso seja devaneio, mas pelo menos é uma volta ao tempo que a gente ainda acreditava em sonhos. E foi assim que Tu luz se tornou uma boa expressão musical para meus duas recentes. A gente precisa voltar a ter fé, em nós mesmos, nós outros –na medida do possível e da realidade- e acima de tudo, admitir que precisamos de redirecionamentos para enxergar o sentido de tudo, mesmo que isso nos tire do nosso lugar de conforto.

Tô ainda aqui, como uma criança que aprecia o desconhecido pela fresta da porta. Tenho medo, mas acho que maior do que o medo é a minha vontade de sair do lugar apertado e ir lá olha-lo mais de perto. Quero sentir o cheiro dessa novidade, quero me deixar transbordar por ela e para ela. Quero encontrar e abraçar com essa parte de mim que não conheço. O caminho para isso? tô buscando, e tem sido lindo me permitir a isso. 




quarta-feira, 8 de março de 2017

8 de Março | 8 canções que valem mais do que as flores

Mais um 8 de março chegou e a luta permanece. Permanece em meio as descrenças, desgraças e a opressão. Os repetidos desejos de “Feliz dia da mulher” ainda soam como uma faca, sufocamento e o som dos tiros que todos os dias persistem em assassinar mulheres. Mulheres da classe operaria, mulheres que cuidam de suas casas e filhos enumeras vezes sozinhas. As mulheres que precisam fazer de sua existência um manifesto de resiliência contra um sistema patriarcal encrustado no amago de uma sociedade, que por alguma causa torpe continua a negar as vozes daquelas que estão aí na luta. Que essa data não seja marcada pelas flores, mas pela luta. Que não se diminua a resistência e a consciência política de todas as mulheres a uma caixa de chocolate e a uma promoção de livraria. Que nossa luta venha a resistir a todas as tentativas de silenciamento, por nós e por todas que vieram antes. A nossa luta não vai sessar, porque ela foi plantada em cada momento da História em que as mulheres saíram do lugar que a sociedade tentava as condicionar e foram fazer a diferença.

Aqui vai algumas canções, nas vozes que não se calaram e usaram arte como instrumento de transformação e militância.


   

Quando em 8 de setembro de 1990 a jovem argentina Maria Soledad Morales foi brutamente assassinada na Província de Catamarca, no Norte da Argentina, o silêncio se tornou uma metáfora para a luta. Entorpecida, estuprada e morta por dois homens que a justiça tardou a condenar, já que suas famílias ocupavam lugar de privilegio dentro da sociedade de práticas oligárquicas de Catamarca. A comoção e o sentimento de impunidade deram início a manifestações que fariam ruir, não apenas o sistema da pequena província, mas também o modo de lutar dos grupos sociais oprimidos na Argentina.

As marchas del silencio já eram praticadas como manifestações desde os anos 70, mas foi o eco da injustiça e da opressão que soavam no Norte que as fizeram cada vez mais populares. Membros da sociedade civil de San Fernando del Valle de Catamarca, cidade em que o crime ocorreu, grupos religiosos católicos, familiares e amigos tomaram as ruas e passaram a chamar a atenção de todo país para o ocorrido. O silêncio cortante das marchas ganhou apoio e cobertura midiática.

Em 1993, o filme El caso Maria Soledad não apenas narrou, mas serviu como um símbolo da eternização da luta por justiça contra o feminicidio. Em sua trilha sonora, a voz de Mercedes Sosa imortaliza Maria Soledad na letra escrita por Osvaldo Montes.

Puede el silencio cambiar tu voz,
puede la historia cambiar.
Y puede el silencio gritar verdad,
puede el camino cambiar.




Em dias de Trump e os desencantos da spoiled classe média norte-americana, o famigerado american way of life foi posto em cheque. O sonho americano e toda a falácia da liberdade capitalista sempre se transformam em tombos homéricos em épocas de crise. Os americanos sempre carregaram o estandarte do bloco “unidos da meritocracia”, e claro que dentro de toda essa pregação que advêm da tradição dos pioneiros da colonização.

Após os anos iniciais da política de Big Stick e as manobras comerciais dos EUA no Entreguerras, a euforia econômica fortaleceu a ideia da liberdade e prosperidade tão exaltadas nas figuras do Tio Sam e da Estátua da Liberdade. A crise econômica veio, a suposta liberdade e a não regulação econômica por parte do Estado entram em recesso. Os anos de Lei Seca e de reformas paternalistas de Franklin Delano Roosevelt foram o contra cesso de tudo que os estadunidenses enxergavam - e ainda enxergam- como o real papel do Estado.

Foi em meio a Segunda Guerra que Janis estreou nesse mundo. E nas tensões e reposições socioeconômicas dos anos 40 e a guinada dos anos 50, o Texas e a vida seguindo a cartilha da boa família americana se tornou muito pequena para ela. Joplin precisava fazer amor com seu público através de sua voz e de sua presença de palco. E foi com o sarcasmo que ela desdenhou da sociedade de consumo norte-americana. A lenda Janis Joplin se utilizou dos símbolos de desejo e do discurso da meritocracia para ironizar o famoso sonho americano. Mercedes Benz foi a última música gravada por Janis, em 1 de outubro de 1970, exatamente 3 dias antes da sua morte.

“I'd like to do a song of a great social and poetical import
It goes like this”

Oh Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends
Worked hard all my lifetime, no help from my friends
So Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?



Instituto de Música Curtis, na Filadélfia se negou a tê-la como aluna. O diploma de piano clássico obtido na renomada Julliard não era o suficiente para derrubar as portas que a segregação – legalizada- ainda empunham nos EUA dos anos 50. Ter nascido negra na Carolina do Norte não foi o suficiente para cala-la. Dedicou sua vida aos estudos musicais e ao ativismo pela obtenção dos Direitos Civis pela comunidade afro-americana.

Eunice Kathleen Waymon se fez Nina Simone, e assim entrou para o hall de figuras que fizeram do seu potencial artístico uma forma de serem ouvidas e de representar uma causa. O ativismo de Nina não era de forma alguma subjetivo. Ela era acida e muita direta em suas críticas. Em plena Guerra do Vietnã, ela se apresentou para as tropas em solo americano com um poema que contrariava os anseios bélicos estadunidenses. Foi dessa forma que, uma de suas composições se tornou um dos hinos da luta pelos Direito Civis.

Mississippi Goddamm foi escrita no icônico ano de 1964, e fala sobre o assassinato de 4 crianças em 1963, em uma igreja da cidade de Birmigham no estado do Mississippi. Nina cita em sua letra a violência pregada contra a população negra nos estados sulistas do Alabama, Tennessee e Mississippi e logo a música se popularizaria entre a resistência afro-americana.

Can't you see it
Can't you feel it
It's all in the air
I can't stand the pressure much longer
Somebody say a prayer



O Movimento pelos Direitos Civis nos EUA foi o lugar de encontro de diversos artistas que viam nesse ativismo a esperança por dias melhores, dignidade e o exercício da igualdade de direitos. O final da década de 1950 e o início dos anos 60 foram marcados por diversas manifestações respostado as ações de ódio de grupos supremacistas brancos, principalmente nas regiões Sul e Central dos EUA. Diversas canções foram entoadas como gritos de resistência.

Joan Baez foi uma das que estiveram na linha de frente do efervescente ativismo dos anos 60. Participante ativa das manifestações pelos Direitos Civis e abertamente contraria a Guerra do Vietnã, Baez iniciou sua carreira com a forte presença do Folk, tendo agregado já nos anos 60 os elementos elétricos que denotam de uma influência das bandas inglesas que estouraram na época. Joan Baez foi companheira musical de Bob Dylan, e juntos interpretaram e escreveram diversas músicas de protesto durante as décadas de 60 e 70.

We Shall Overcome não foi escrita por Baez, mas foi na suave e contundente interpretação de Baez durante a Marcha em Washington D.C que a canção se tornou ainda mais popular.

Oh, deep in my heart
I know that I do believe
We shall overcome, some day





                                                                                     
Víctor Jara, Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, León Gieco, Milton Nascimento, Joan Báez são conhecidos por darem vozes as canções de protesto, e todos eles tiveram suas carreiras marcadas por interpretações das músicas da chilena Violeta Parra. Não apenas uma divulgadora da música popular chilena, mas sendo considerada a fundadora da música popular daquele país, Violeta foi uma artista com múltiplas facetas.

Como escultora e ceramista, teve sua exposição individual no Museu do Louvre, em 1964. Mas foi como a compositora de um cancioneiro que se tornaria o símbolo de seu país e influência para outros artistas da América Latina que Parra foi imortalizada.

Em sua canção de protesto Los hambrientos piden pan, que após sua morte ficaria conhecida como La Carta, Violeta Parra usa a correspondência em que recebe notícias de seu irmão Roberto, que estava sofrendo perseguição política no Chile – nessa época ela vivia em Paris- para retratar as questões sociais recorrentes na América do Sul tomada por regimes opressores.

Yo que me encuentro tan lejos
Esperando una noticia
Me viene a decir la carta
Que en mi patria no hay justicia
Los hambrientos piden pan
Plomo les da la milicia, si




O sobrenome Confederado não lhe cai bem. Ao lado de Gal Costa e Nara Leão, Rita Lee Jones foi uma das mulheres que participaram do histórico disco Tropicália ou Panis et circenses. Rita nasceu em meio ao conforto estilo classe média muito bem abastada, repousada na Vila Madalena. Filha de um dentista norte-americano -que acrescentou o Lee em homenagem ao general Confederado- e neta de imigrantes italianos, Rita foi criada para seguir a profissão do pai, odontólogo, mas ela estava destinada a ser a ovelha negra da família.

Com os Mutantes se tornou referência no Rock Progressivo que ainda engatinhava no Brasil. Já nos anos 70, foi com a banda Tutti Frutti que Rita Lee marcaria de vez o seu nome como uma das artistas mais influentes da música brasileira. Rita já escreveu diversas canções onde questiona os padrões de gênero.


Porque nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem




Quem houve Chavela Vargas talvez não de conta do forte papel de quebra de paradigmas que sua figura proporcionou dentro da música tradicional mexicana. Nascida na Costa Rica e radicada no México durante cerca de 80 anos, Vargas ocupou um lugar que antes parecia exclusivo para os homens. A tradição da música rancheira mexicana é predominante ocupada por figuras masculinas, e foi Chavela, que entre os anos 30 e 50 ocupou seu espaço interpretando conhecidas canções do cancioneiro mexicano.

Fez parte do círculo de amizade de Diego Rivera e Frida Kahlo, com quem suspostamente teria vivido também um relacionamento amoroso. Viveu uma vida de excessos, e viu o alcoolismo praticamente acabar com sua carreira. Nos anos 90, Pedro Almodóvar descobre a interpretação de Chavela e a incorpora a trilha de alguns de seus filmes. Foi a volta de Chavela Vargas ao seu merecido lugar de ícone da música tradicional mexicana.

A paixão com a qual Chavela viveu sua arte e sua vida parecem se encontrar na interpretação dela para a música Paloma Negra, de Tomás Mendez Sosa.

Hay momentos en que quisiera mejor rajarme
y arrancarme ya los clavos de mi penar,
pero mis ojos se mueren sin mirar tus ojos
y mi cariño con la aurora te vuelve a buscar.


E o Brasil redescobriu a potência de Elza. Discriminada durante anos de sua carreira, Elza Soares amargou duros anos de perseguição no inicio de sua relação com Garrincha. Acusada pelos conservadores de destruir o casamento do então jogador, Elza teve uma vida artística e pessoal cheia de altos e baixos. Mas o tempo, ah o tempo, esse foi responsável por colocar tudo no lugar e trazer o reconhecimento justo por uma carreira de resistência.

Filha de um operário e de uma lavadeira, Elza Soares foi criada na periferia do Rio de Janeiro. Com uma vida dura, ela foi obrigada pelos pais a casar-se quando ainda tinha 12 anos de idade, tendo seu primeiro filho ainda na adolescência. Sua origem humilde era motivo para o preconceito velado que sofria ao se apresentar nas rádios, mas a resistência dela sempre teve uma força condizente com a potência de sua voz.

Foi escolhida pela BBC como a cantora brasileira do milênio. Cantou o hino Brasileiro na abertura do Pan Americano de 2007 e participou também da abertura dos Jogos Olímpicos de 2016. Elza é a Mulher do Fim do Mundo.

Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida dura até o fim
Mulher do fim do mundo

Eu sou e vou até o fim cantar