sexta-feira, 12 de maio de 2017

Rihanna | A culpa não é nossa


Quando eu tinha 5 anos de idade a vida se apresentou para mim. Sem pedir licença, sem sutileza, apenas veio e deixou em mim o medo. O medo se tornou algo intrínseco a mim. Algumas pessoas falam que o medo é uma demonstração de que existe vida pulsando, mas para mim o medo é a tensão de não querer ser ferida, o pavor da reprovação de um olhar, o temor de um gesto ou uma palavra que reprime. O medo é como tocar uma ferida aberta, que por mais que se aproxime com toque cuidadoso, a dor ainda vai estar lá. Esse pavor é uma dor que calcifica.

A adolescência veio, e toda a ferida que já estava aberta apenas ganhou profundidade. Essa dor que se aprofundou, tomou contorno e preenchimento de melancolia. Você senta e passa a apenas aceitar, o que não a vida, mas o que momento oferece. A mente cria estratégias para sobreviver em meio ao caos, você entra em estado de automação. Replica gestos, falas e sorriso porque no fundo, por mais que não pareça, você quer sobreviver.

Quando tudo se torna apenas uma questão de sobrevivência o prazer dá lugar a uma couraça que tenta desesperadamente servir como cobertura para todas essas feridas que nos marcam ao longo do caminho. Tudo se torna uma questão de viver defensivamente, se protegendo, nem que para isso seja necessário mostrar os dentes e ferir alguém. Não passamos mais a viver, estamos só nessa guerrilha emocional, que é um processo cíclico e autodestrutivo.

And you got me like, oh
What you want from me?
(What you want from me?)
And I tried to buy your pretty heart
But the price is too high

Rihanna transpões tudo isso para uma música. Em seu oitavo álbum de estúdio, Anti, ela em parceria com Fred Ball e Joseph Angel lançou Love on the Brain. A décima primeira faixa do álbum foi também o 4º single da barbadense para esse trabalho lançado em 2015. Pelo que tudo indica, todo trabalho seria acompanhado de vídeos e reflexões da própria Rihanna que ajudariam a interpreta esse lançamento, mas o vazamento do material na internet interrompeu esse processo criativo da artista. Ficamos então sem o vídeo que fecharia esse processo de composição e interpretação da música. Mas a letra toma vida e folego na mente de cada um que já viveu ou vive o que ela está cantando.

Love on the Brain é sobre uma relação abusiva. Na letra ela deixa claro os vários estágios desse abuso, como a forma que sua vida está atrelada a dele (No matter what I do, I’m not good without you) e como isso a leva a aceitar a dor (So you can put me together and throw me against the wall). Ele parece como um personagem que vem e vai, aparece quando é conveniente a ele, mas a prende emocionalmente e a usa como objeto de satisfação pessoal.

E por mais que se tente ser didática, é difícil explicar para quem está de fora o mecanismo de atuação de um abuso na mente de quem sofre. Talvez algumas pessoas apenas se perguntem a motivação da permanência em uma relação abusiva, o que essas pessoas não entendem é como o abusador se utiliza de mecanismo para atrelar aquela pessoa psicologicamente a ele através da baixa autoestima, medo e inversão. Isso não ocorre apenas em relacionamentos abusivos, mas também em outros tipos de abusos, onde quem sofre o abuso não reage ou denuncia por se ver em uma dessas situações.

That’s got me feeling this way
(Feeling this way)
It beats me black and blue, but it fucks me so good

Essa dor serve como estopim de uma crise de ansiedade que toma o folego. Esse medo fomenta uma depressão, o autoflagelo da mente que carrega em si todo peso do mundo. E você se afunda, ficar só consigo mesmo se torna a solução viável de quem não aguenta mais tudo isso. Você ali, encolhido, fechado em sua concha é intocável no estratagema da sua consciência.  O que você não se dá conta é da força que carrega em si. Você sobreviveu a tudo isso e tem o direito de seguir em frente. Existe uma força interna muito maior que a dor, e essa força nos mantém vivos.


Em um dos vídeos de lançamento de Anti, Rihanna aparece ao redor de uma criança que interage com ela e lhe entrega uma coroa. Todos temos uma criança que nos espreita. A nossa criança interna que foi machucada, abatida e que sofreu com a apresentação dessa vida para ela. Alguém muito especial me disse ”olha, antes essa criança estava sozinha e não tinha como se defender. Agora essa criança tem você e você não precisa mais ter medo. Você tem como se defender”. Toda ansiedade, melancolia e o temor de enfrentar a vida não são mais um perigo real, aquele risco ao qual ficamos expostos, mas sim a memória de todo sofrimento que já foi enfrentado.

domingo, 7 de maio de 2017

Luíza Possi | Som de amor próprio


Tudo que é ruim passa, mas o que é bom é datado também. A diferença são as memórias que ficam. O que foi ruim vai sem deixar saudades, porém ficam marcas profundas na maioria das vezes. O que foi bom, do nosso agrado, fica salvo na lembrança como o indicio da felicidade. Fica no exalar do perfume, na letra da canção, numa camiseta amassada no fundo do guarda-roupa, ou simplesmente no instante silencioso que traz como um flash aquilo que se viveu. Mas não sejamos reféns do passado.

Escrevo esse texto antes de qualquer coisa para mim mesma. Esses dias me peguei remoendo memórias de uma relação de uns 3 anos atrás, e isso martiriza um bocado, porque a gente se pega idealizando com o nosso famigerado “e se..?”. E se um caralho, meus amigos. Sejamos gratos por cada coisa boa que nos ocorre, mas não os idealizemos, porque a probabilidade de “quebração” de cara é enorme. As impossibilidades das relações e das oportunidades que não rolaram tem seus porquês. Se você tentou o melhor que poderia naquele momento e as coisas simplesmente não aconteceram, então aquilo não era seu, aquele não era o seu momento. A gente não precisa ser religioso pra acreditar que tem coisa que não pode ir pra frente por simplesmente não ser a hora de acontecer ou não ter que acontecer.

E com relação as experiências ruins, não precisamos nos privar do sofrimento. Amoitar sofrimento é como tentar conter o curso de um rio. Eu sou a maior especialista em amoitar sentimento que você respeita. Minha mãe costuma dizer que eu me fecho em uma concha. É horrível viver assim, gera uma amargura e nos impede de enxergar as possibilidades nos acontecimentos. Fazer de conta que coisas ruins não aconteceram não pode ser uma alternativa. Se permita sentir, não tenha vergonha disso. Tenho tentado aprender a viver essa permissão.

Nunca vi chorar tanto por alguém
Que não te quis, deixe estar
Que ele vai voltar, louco pra te ver
Então verá, que você cresceu
E apareceu em seu lugar
E hoje está louca pra sair
Sem saber que horas vai voltar

Já escrevi sobre o 5 a Seco em outra postagem, eles estão aqui novamente através da letra de Deixa Estar, mas a voz que deu vida a essa canção na minha memória foi Luíza Possi. A música é de 2011, Luíza colocou sua pegada em cima da letra sempre realista dos caras do 5 a seco. O que eu particularmente gosto das letras deles é que não tem muita firula, sem invenção, é na lata. E Luíza é poder, né mores? Essa música encaixa perfeitamente nas propostas musicais que a gente já conhece dela.

Deixa estar é aquela sacudida de poeira que todo mundo precisa na vida. É um diálogo, daqueles que só uma pessoa que tá de fora da situação pode jogar umas verdades na nossa cara. É certo que muitas vezes a gente pega ranço dessas verdades, porque de fato elas estão ligadas a coisas que são obvias para gente também. É, muitas vezes a gente permanece na merda pelo medo de dar o passo a diante por mais que a relação já esteja desgastada, ou já seja algo fadado a dar errado. Todo mundo vê, sabe, comenta, te fala, aconselha, mas não tem jeito. Você, por orgulho ou pretensão, não toma uma decisão de findar essa marmita de ontem que se tornou esse relacionamento.

Eu quero mais é te ver na pista da vida
Dançando sem parar
Eu quero mais é sumir com as pistas
De onde ele foi parar

A vida tá ai pra ser vivida. Com as amarguras e com as delicias de cada instante, se apresenta como uma dádiva diária. E temos sempre que desejar e experimentar essa entrega. Na privação do ser, deixamos passar o que de fato importa: a eternidade de cada momento. Que nos joguemos mais nas experiências. Por esses dias, me bateu uma aflição quando percebi que eu não tenho uma bucket list. Deve ser meu sol em Touro e ascendente em Capricórnio. Mas na verdade, eu sempre pensei nos meus desejos como coisas que para muitos poderiam ser triviais. O conforto de um refúgio, o dinheirinho para descobrir novos lugares e me jogar em paradas gastronômicas e ter o cheirinho de um outro alguém no lado esquerdo da cama. Mas até esses sonhos, ditos simples, já são motivos para mover e levantar para enfrentar a jornada todos os dias. A gente se motiva com o que tem.
A gente gosta de complicar. Isso é tão intrínseco a nossa existência. Complicar é como um velho desafio contra nós mesmos, onde tentamos nós provar que estamos errados. Olha que parada louca. Temos tudo que precisamos, mas nos falta a humildade de entender e assumir que erramos. Não tem nada de vergonhoso em assumir que precisamos dar meia volta ás vezes. A gente tem que admitir que entramos em furadas, o vergonhoso é não se permitir sair delas. A gente tem muita pretensão em achar que podemos moldar as pessoas aos nossos gostos e que elas vão mudar sempre porque acreditamos ser o melhor para elas. Isso só prova o quanto achamos que somos mais do que realmente nossa mãe pariu.

Se ele não ligou, nunca te escreveu
Não vai prestar, chega aqui
E eu vou te falar o que você sempre quis ouvir
Deixa isso pra lá
Que isso não pode ficar assim
Põe um fim
Ele vai voltar louco pra te ver
E então verá


O que falta é amor próprio. Não podemos confundir o lado pretensioso que temos com amor próprio. Tá cheio de gente por aí que acha que é a dose de dipirona da vida de alguém, mas que na verdade não consegue lidar nem com a própria realidade. Rupaul já nos ensinou que “if you don't love yourself how in the hell you gonna love somebody else”. Mas é uma peleja diária, amor próprio e aceitação não brotam no canequinho com algodão e broto de feijão, mas é um exercício. Tem que começar em não remoer os fracassos. Se vier na cabeça, se bater na porta, se passar na rua ou ouvir na rádio, simplesmente deixe passar. Tudo passa.  

segunda-feira, 27 de março de 2017

Carla Morrison| Devagar para não se machucar


Minhas passagens pelo blog estão se tornando cada vez mais inconstantes. Acho que esse ano vai ser cercado dessas inconstâncias. Os dias se tonam mais curtos, parece que as horas trabalham contra e que a cada dia as obrigações se multiplicam. Esse blog nunca foi uma obrigação, nasceu no final da minha adolescência como uma forma de expressar os sentidos que as canções sempre despertaram em mim. Nas primeiras postagens, ainda era uma adolescente tentando encontrar sentido, hoje eu posso sentir como cada texto é como uma imagem do meu estado de espirito em cada uma dessas fases. Essa página é marcada por três grandes hiatos, que caracterizam de forma interessante quem eu sou exatamente agora e talvez, distinto do que eu serei amanhã.

Na primeira parte eu era uma adolescente descobrindo as coisas e a mim mesma. Meus devaneios beiravam a arrogância, aquele jeito de saber tudo que todo adolescente arrota na cara do mundo. Nessa época descobri o amor, da forma mais inusitada possível. Enlouqueci e não cabia dentro de mim, era algo grande demais para parar aqui dentro. Foi transposto e marcou minha pele para sempre. Nessa época eu nem conseguia pensar em escrever e foi a primeira pausa do blog. O desencanto me fez voltar a escrever um único texto, só para lavar a alma e desabafar. Me desgostei e entrei em um looping de “tanto faz” e fiquei estagnada durante quase 3 anos. Eu poderia ter ficado nesse “tanto faz” se a vida não tivesse me pregado uma peça. Eu não chamaria de descaminho, mas sim de “recaminho”. Tudo que aconteceu em 2015-2016 serviu para de alguma forma me mostrar novas possibilidades e crescer a vontade do reencontro comigo mesma.


Alguna vez camine sin pies
Deseando poderlos obtener
Y al mirar hacia atrás
Pude ver y encontrar
Que la decisión que di
Fue arrastrándome
Hasta poder llegar aquí
Y pude adivinar que
Me hacía falta tu luz...

 Há algum tempo não ouvia Carla Morrison. Ela já apareceu em outros textos, principalmente na época que o blog ainda estava começando. A Carla foi um achado, até hoje não lembro exatamente como comecei a ouvir o Aprendiendo a Aprender, que foi o primeiro EP dela. Na época, eu ouvia muita música indie mexicana por intermédio de Agatha (amiga dos melhores encontros em aeroporto que você respeita) e acredito que foi assim que comecei a dormir ouvindo Buena Malicia.

O segundo EP da Carla foi produzido por sua contemporânea e companheira da cena musical mexicana Natália Lafourcade. Mientras tú dormías é composto de 8 canções autorais, sendo uma escrita em parceria com Lafourcade (Pajarito del Amor). Assim como no primeiro álbum, Morrison demonstra uma delicadeza musical que nos dias de hoje é rara para o mercado fonográfico.

Volví a reconocer mi piel
Sentí brazos
Y el tiempo recorrer
Y volvió a mí la fe
Y reconocí tu luz

Tu luz é a sexta faixa do disco. Uma canção cheia de sutileza, violão, piano, algum instrumento percussivo e a voz de Carla. A melodia parece despretensiosa, mas traz consigo uma letra que desperta memorias e nos deixa vislumbrar um novo caminho.
Por esses dias a ficha caiu. Eu acredito que boa parte das pessoas ficam se enganando, achando que podem lidar com as dores sozinhas e tendem a prolonga-las e tomar o caminho de se afundarem junto com suas demandas não resolvidas. A gente fica empurrando com a barriga e se contentando com os mecanismos que nosso cérebro vai criando no meio dessa jornada. É como se sentar e apenas esperar a vida passar.

As nossas feridas são inúmeras, desde as que vamos acumulando desde a infância, até as frustrações diárias da idade adulta. A sensação é de nesses momentos nos roubassem um fiozinho de esperança que acalentávamos. Imagina, na infância todos temos um mundo idealizado na mente, onde nossos pais são nossos heróis e parecemos indestrutíveis. Bem, quando criança acreditamos até que nossos brinquedos são eternos, até que um adulto nos avisa que temos que ter cuidado para não o quebrar.  E aos poucos a inocência vai se esvaindo, por diversos motivos e temos que começar a enxergar um outro mundo, onde a superficialidade é quem dá o tom.

A gente se protege do jeito que dá. A gente se tranca, se resguarda e até vendemos a imagem da rede social que todos querem ver. Mas isso cansa, desgasta profundamente e cria feridas tão difíceis de lidar quanto as que já causaram esse estrago. A gente se afunda.
Semana passada alguém muito especial me disse para respirar, para ir com calma, devagar para não me machucar. Por algum motivo, desde então isso não saiu da minha cabeça. O quanto a gente perde de nós mesmos na pressa dos dias e na voracidade dos prazos. A gente vende a alma por coisas que enchem currículo mas esvaziam nossa singularidade. O que de fato gostaríamos de estar fazendo agora? Eu tenho alguns vislumbres. Continuar dando aulas, ter tempo para me aprofundar em assuntos ligados a Astrologia, quem sabe estudar mais o Tarô Mitológico que anda mais guardadinho do que o desejado...

Talvez tudo isso seja devaneio, mas pelo menos é uma volta ao tempo que a gente ainda acreditava em sonhos. E foi assim que Tu luz se tornou uma boa expressão musical para meus duas recentes. A gente precisa voltar a ter fé, em nós mesmos, nós outros –na medida do possível e da realidade- e acima de tudo, admitir que precisamos de redirecionamentos para enxergar o sentido de tudo, mesmo que isso nos tire do nosso lugar de conforto.

Tô ainda aqui, como uma criança que aprecia o desconhecido pela fresta da porta. Tenho medo, mas acho que maior do que o medo é a minha vontade de sair do lugar apertado e ir lá olha-lo mais de perto. Quero sentir o cheiro dessa novidade, quero me deixar transbordar por ela e para ela. Quero encontrar e abraçar com essa parte de mim que não conheço. O caminho para isso? tô buscando, e tem sido lindo me permitir a isso. 




quarta-feira, 8 de março de 2017

8 de Março | 8 canções que valem mais do que as flores

Mais um 8 de março chegou e a luta permanece. Permanece em meio as descrenças, desgraças e a opressão. Os repetidos desejos de “Feliz dia da mulher” ainda soam como uma faca, sufocamento e o som dos tiros que todos os dias persistem em assassinar mulheres. Mulheres da classe operaria, mulheres que cuidam de suas casas e filhos enumeras vezes sozinhas. As mulheres que precisam fazer de sua existência um manifesto de resiliência contra um sistema patriarcal encrustado no amago de uma sociedade, que por alguma causa torpe continua a negar as vozes daquelas que estão aí na luta. Que essa data não seja marcada pelas flores, mas pela luta. Que não se diminua a resistência e a consciência política de todas as mulheres a uma caixa de chocolate e a uma promoção de livraria. Que nossa luta venha a resistir a todas as tentativas de silenciamento, por nós e por todas que vieram antes. A nossa luta não vai sessar, porque ela foi plantada em cada momento da História em que as mulheres saíram do lugar que a sociedade tentava as condicionar e foram fazer a diferença.

Aqui vai algumas canções, nas vozes que não se calaram e usaram arte como instrumento de transformação e militância.


   

Quando em 8 de setembro de 1990 a jovem argentina Maria Soledad Morales foi brutamente assassinada na Província de Catamarca, no Norte da Argentina, o silêncio se tornou uma metáfora para a luta. Entorpecida, estuprada e morta por dois homens que a justiça tardou a condenar, já que suas famílias ocupavam lugar de privilegio dentro da sociedade de práticas oligárquicas de Catamarca. A comoção e o sentimento de impunidade deram início a manifestações que fariam ruir, não apenas o sistema da pequena província, mas também o modo de lutar dos grupos sociais oprimidos na Argentina.

As marchas del silencio já eram praticadas como manifestações desde os anos 70, mas foi o eco da injustiça e da opressão que soavam no Norte que as fizeram cada vez mais populares. Membros da sociedade civil de San Fernando del Valle de Catamarca, cidade em que o crime ocorreu, grupos religiosos católicos, familiares e amigos tomaram as ruas e passaram a chamar a atenção de todo país para o ocorrido. O silêncio cortante das marchas ganhou apoio e cobertura midiática.

Em 1993, o filme El caso Maria Soledad não apenas narrou, mas serviu como um símbolo da eternização da luta por justiça contra o feminicidio. Em sua trilha sonora, a voz de Mercedes Sosa imortaliza Maria Soledad na letra escrita por Osvaldo Montes.

Puede el silencio cambiar tu voz,
puede la historia cambiar.
Y puede el silencio gritar verdad,
puede el camino cambiar.




Em dias de Trump e os desencantos da spoiled classe média norte-americana, o famigerado american way of life foi posto em cheque. O sonho americano e toda a falácia da liberdade capitalista sempre se transformam em tombos homéricos em épocas de crise. Os americanos sempre carregaram o estandarte do bloco “unidos da meritocracia”, e claro que dentro de toda essa pregação que advêm da tradição dos pioneiros da colonização.

Após os anos iniciais da política de Big Stick e as manobras comerciais dos EUA no Entreguerras, a euforia econômica fortaleceu a ideia da liberdade e prosperidade tão exaltadas nas figuras do Tio Sam e da Estátua da Liberdade. A crise econômica veio, a suposta liberdade e a não regulação econômica por parte do Estado entram em recesso. Os anos de Lei Seca e de reformas paternalistas de Franklin Delano Roosevelt foram o contra cesso de tudo que os estadunidenses enxergavam - e ainda enxergam- como o real papel do Estado.

Foi em meio a Segunda Guerra que Janis estreou nesse mundo. E nas tensões e reposições socioeconômicas dos anos 40 e a guinada dos anos 50, o Texas e a vida seguindo a cartilha da boa família americana se tornou muito pequena para ela. Joplin precisava fazer amor com seu público através de sua voz e de sua presença de palco. E foi com o sarcasmo que ela desdenhou da sociedade de consumo norte-americana. A lenda Janis Joplin se utilizou dos símbolos de desejo e do discurso da meritocracia para ironizar o famoso sonho americano. Mercedes Benz foi a última música gravada por Janis, em 1 de outubro de 1970, exatamente 3 dias antes da sua morte.

“I'd like to do a song of a great social and poetical import
It goes like this”

Oh Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?
My friends all drive Porsches, I must make amends
Worked hard all my lifetime, no help from my friends
So Lord, won't you buy me a Mercedes-Benz?



Instituto de Música Curtis, na Filadélfia se negou a tê-la como aluna. O diploma de piano clássico obtido na renomada Julliard não era o suficiente para derrubar as portas que a segregação – legalizada- ainda empunham nos EUA dos anos 50. Ter nascido negra na Carolina do Norte não foi o suficiente para cala-la. Dedicou sua vida aos estudos musicais e ao ativismo pela obtenção dos Direitos Civis pela comunidade afro-americana.

Eunice Kathleen Waymon se fez Nina Simone, e assim entrou para o hall de figuras que fizeram do seu potencial artístico uma forma de serem ouvidas e de representar uma causa. O ativismo de Nina não era de forma alguma subjetivo. Ela era acida e muita direta em suas críticas. Em plena Guerra do Vietnã, ela se apresentou para as tropas em solo americano com um poema que contrariava os anseios bélicos estadunidenses. Foi dessa forma que, uma de suas composições se tornou um dos hinos da luta pelos Direito Civis.

Mississippi Goddamm foi escrita no icônico ano de 1964, e fala sobre o assassinato de 4 crianças em 1963, em uma igreja da cidade de Birmigham no estado do Mississippi. Nina cita em sua letra a violência pregada contra a população negra nos estados sulistas do Alabama, Tennessee e Mississippi e logo a música se popularizaria entre a resistência afro-americana.

Can't you see it
Can't you feel it
It's all in the air
I can't stand the pressure much longer
Somebody say a prayer



O Movimento pelos Direitos Civis nos EUA foi o lugar de encontro de diversos artistas que viam nesse ativismo a esperança por dias melhores, dignidade e o exercício da igualdade de direitos. O final da década de 1950 e o início dos anos 60 foram marcados por diversas manifestações respostado as ações de ódio de grupos supremacistas brancos, principalmente nas regiões Sul e Central dos EUA. Diversas canções foram entoadas como gritos de resistência.

Joan Baez foi uma das que estiveram na linha de frente do efervescente ativismo dos anos 60. Participante ativa das manifestações pelos Direitos Civis e abertamente contraria a Guerra do Vietnã, Baez iniciou sua carreira com a forte presença do Folk, tendo agregado já nos anos 60 os elementos elétricos que denotam de uma influência das bandas inglesas que estouraram na época. Joan Baez foi companheira musical de Bob Dylan, e juntos interpretaram e escreveram diversas músicas de protesto durante as décadas de 60 e 70.

We Shall Overcome não foi escrita por Baez, mas foi na suave e contundente interpretação de Baez durante a Marcha em Washington D.C que a canção se tornou ainda mais popular.

Oh, deep in my heart
I know that I do believe
We shall overcome, some day





                                                                                     
Víctor Jara, Atahualpa Yupanqui, Mercedes Sosa, León Gieco, Milton Nascimento, Joan Báez são conhecidos por darem vozes as canções de protesto, e todos eles tiveram suas carreiras marcadas por interpretações das músicas da chilena Violeta Parra. Não apenas uma divulgadora da música popular chilena, mas sendo considerada a fundadora da música popular daquele país, Violeta foi uma artista com múltiplas facetas.

Como escultora e ceramista, teve sua exposição individual no Museu do Louvre, em 1964. Mas foi como a compositora de um cancioneiro que se tornaria o símbolo de seu país e influência para outros artistas da América Latina que Parra foi imortalizada.

Em sua canção de protesto Los hambrientos piden pan, que após sua morte ficaria conhecida como La Carta, Violeta Parra usa a correspondência em que recebe notícias de seu irmão Roberto, que estava sofrendo perseguição política no Chile – nessa época ela vivia em Paris- para retratar as questões sociais recorrentes na América do Sul tomada por regimes opressores.

Yo que me encuentro tan lejos
Esperando una noticia
Me viene a decir la carta
Que en mi patria no hay justicia
Los hambrientos piden pan
Plomo les da la milicia, si




O sobrenome Confederado não lhe cai bem. Ao lado de Gal Costa e Nara Leão, Rita Lee Jones foi uma das mulheres que participaram do histórico disco Tropicália ou Panis et circenses. Rita nasceu em meio ao conforto estilo classe média muito bem abastada, repousada na Vila Madalena. Filha de um dentista norte-americano -que acrescentou o Lee em homenagem ao general Confederado- e neta de imigrantes italianos, Rita foi criada para seguir a profissão do pai, odontólogo, mas ela estava destinada a ser a ovelha negra da família.

Com os Mutantes se tornou referência no Rock Progressivo que ainda engatinhava no Brasil. Já nos anos 70, foi com a banda Tutti Frutti que Rita Lee marcaria de vez o seu nome como uma das artistas mais influentes da música brasileira. Rita já escreveu diversas canções onde questiona os padrões de gênero.


Porque nem toda feiticeira é corcunda
Nem toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem




Quem houve Chavela Vargas talvez não de conta do forte papel de quebra de paradigmas que sua figura proporcionou dentro da música tradicional mexicana. Nascida na Costa Rica e radicada no México durante cerca de 80 anos, Vargas ocupou um lugar que antes parecia exclusivo para os homens. A tradição da música rancheira mexicana é predominante ocupada por figuras masculinas, e foi Chavela, que entre os anos 30 e 50 ocupou seu espaço interpretando conhecidas canções do cancioneiro mexicano.

Fez parte do círculo de amizade de Diego Rivera e Frida Kahlo, com quem suspostamente teria vivido também um relacionamento amoroso. Viveu uma vida de excessos, e viu o alcoolismo praticamente acabar com sua carreira. Nos anos 90, Pedro Almodóvar descobre a interpretação de Chavela e a incorpora a trilha de alguns de seus filmes. Foi a volta de Chavela Vargas ao seu merecido lugar de ícone da música tradicional mexicana.

A paixão com a qual Chavela viveu sua arte e sua vida parecem se encontrar na interpretação dela para a música Paloma Negra, de Tomás Mendez Sosa.

Hay momentos en que quisiera mejor rajarme
y arrancarme ya los clavos de mi penar,
pero mis ojos se mueren sin mirar tus ojos
y mi cariño con la aurora te vuelve a buscar.


E o Brasil redescobriu a potência de Elza. Discriminada durante anos de sua carreira, Elza Soares amargou duros anos de perseguição no inicio de sua relação com Garrincha. Acusada pelos conservadores de destruir o casamento do então jogador, Elza teve uma vida artística e pessoal cheia de altos e baixos. Mas o tempo, ah o tempo, esse foi responsável por colocar tudo no lugar e trazer o reconhecimento justo por uma carreira de resistência.

Filha de um operário e de uma lavadeira, Elza Soares foi criada na periferia do Rio de Janeiro. Com uma vida dura, ela foi obrigada pelos pais a casar-se quando ainda tinha 12 anos de idade, tendo seu primeiro filho ainda na adolescência. Sua origem humilde era motivo para o preconceito velado que sofria ao se apresentar nas rádios, mas a resistência dela sempre teve uma força condizente com a potência de sua voz.

Foi escolhida pela BBC como a cantora brasileira do milênio. Cantou o hino Brasileiro na abertura do Pan Americano de 2007 e participou também da abertura dos Jogos Olímpicos de 2016. Elza é a Mulher do Fim do Mundo.

Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida
Na avenida dura até o fim
Mulher do fim do mundo

Eu sou e vou até o fim cantar

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Off Topic| Carta aberta à minha aluna angustiada

Não sei mais se o relógio continua na mesma batida. O passo acelerado nas ruas e os pneus cantando no asfalto parecem nos mostrar como estamos sendo atrasados, um passo atrás. A vida tirou o Coelho e seu relógio dos livros de Lewis Carroll e o trouxe diretamente para nossos ouvidos. O cotidiano regido pelos horários, agendas e calendários rabiscados de eventos parecem buscar preencher o vazio de nossa inquietude pessoal. Os cabelos brancos chegam mais cedo do que antes, a sensação de fracasso também.

A crise dos 30 encurtou para os 25, e aos 16 parece que os adolescentes já estão a cometer um pecado capital se não souberem o que cursar, com o que trabalhar e para onde ir. A geração fast food também precisa engolir sem mastigar seus medos, angustias e as crises depressivas cada vez mais constantes e precoces. Precoce, por sinal, é um termo que precisa ser revisto já que nessa “sociedade do ontem”, onde o agora já parece ser tarde demais para os sonhos e expectativas, o que taxava muitos como “adiantados” agora já soa como a normalidade de um sistema que suprime infâncias, negocia adolescências e nos entrega aos lobos na juventude.

Um outro dia uma ex-aluna me enviou uma mensagem em meio a uma crise de ansiedade, parei e ouvi. Sei bem como são esses episódios, pois eles se repetem na minha vida como comedia barata na Sessão da Tarde. Quantas vezes já não fui eu implorando pelo conselho da minha orientadora em meio a uma crise que não me deixava escrever? Muitas, contando as vezes que foram e os momentos que ainda virão. Mas voltando a minha ex-aluna, ela não tem sequer 17 anos e já sente nos ombros e na mente uma responsabilidade que não pertence a ela, porém massageia o ego dos que a cercam.

De um lado os pais esperam que os filhos se tornem o diploma pendurado na parede da sala, a satisfação de ter “formado” um ser humano que carrega consigo valores e algum relativo sucesso, o que os fazem envaidecidos como a vitória de sua própria criação. É um extinto de sobrevivência, querendo mostrar que sua prole pode prevalecer e seguir em frente nos jogos vorazes da vida comandada pelo capital. Os pais precisam de filhos médicos, advogados e engenheiros para que sejam honra à sua própria consciência. Vivemos em um mundo que repete o cachorro Mutley em seu eterno desejo por medalhas.
Professores cada dia mais transformam seus alunos em parte de sua jornada pelo marketing pessoal. Um aluno aprovado no vestibular pode ser a propaganda de um trabalho que pode ser pautado em números. Dessa maneira, tem se tornado comum a cobrança excessiva em detrimento a qualidade de vida dos alunos, pois o “sucesso” desse aluno também passou a ser o troféu da consciência de alguns profissionais.

Não estou aqui dizendo que deve haver um relaxamento, muito pelo contrário. Eu apenas acredito que a busca pelos números frios e aprovações de encomenda estão em um crescente. E em meio a isso tudo, em meio a angustia de minha aluna eu pergunto: qual o problema de descobrir no meio da graduação que não era aquilo que você queria para sua vida? Qual o problema dos recomeços? Qual o pecado em não concluir a graduação aos 23 anos ou de não estar em um mestrado em imediato ao termino da graduação? Queremos a velocidade da realização de uma vida que não é nossa, queremos a concretização de sonhos que não temos em nossas mentes. A verdade é que nossa sociedade se tornou tão superficial que chegamos ao ponto de perder nossos nomes para dar lugar as famigeradas “doutoras”, “mestras” ou “excelências”. Perder nossa identidade faz parte do kit consagração social, perder nossos nomes e trocar por coisas impessoais é um preço caro e que muitos exercem a compra com sorrisos nos lábios sem saber o real valor da cobrança final.

Em meio a tudo isso, eu sempre me deparo com manchetes indignadas com o fim “precoce” da carreira do Adriano, ele mesmo, o Imperador. Fico me perguntando o porquê de as pessoas não conseguirem aceitar o fato do cara não querer mais a vida midiática. O pecado do Adriano é ter abnegado do futebol profissional para voltar para a comunidade e passar o resto do tempo lá com as pessoas que o viram antes que ele deixasse de ser só o Adriano para carregar a alcunha de Imperador. Pesado.


Enfim, a vida é um sopro e tem se arrastado em dores causadas pela angustia que cerca a vida de pessoas com crises de ansiedade. Talvez tenha se tornado um caminho sem volta, provavelmente a geração milênio vai ter de pagar essa conta com juros altíssimos para poder não ser o motivo do “fracasso” que leva aos risos das tias em almoço de domingo. Provavelmente, não farão nada só por si, mas primordialmente para dizer que podem, já que a vida passou a ser tratada como mais um estágio no videogame. Meu único apelo é: vocês não são, nem precisam ser, troféus da consciência de ninguém. 

sábado, 24 de dezembro de 2016

Luli e Lucina| Coincidência é como os céticos tratam o destino


Como historiadora, a relação do espaço/tempo é sempre algo tão corriqueiro na minha mente, nas reflexões, nas indagações e desconstruções. É também da minha lida a eterna problematização dos fatos. Mas tem coisas que a nossa razão humana não pode dar contar, explicar ou tomar nota. A gente só aceita e contempla, não fica fazendo pergunta, só vive. Aprendemos que a reposta para alguns acontecimentos simplesmente é aceitar e contemplar a beleza do presente que a vida nos oferece.

Vocês acreditam em coincidência? Eu particularmente nunca me dei ao luxo de acreditar nela. Eu acho que sou uma sonhadora, uma eterna idealista. Não consigo pensar que a grandeza dos sentimentos que vivemos seja algo randômico, passageiro e isolado. Talvez eu alimente a loucura em mim que tudo isso faz parte de algo muito maior e que nem cabe a nós entendermos. Nossa visão humana é tão limitada, é tão pequena. A gente resume coisas e pessoas a momentos, a valores e a utilidade delas. Nós não merecemos, talvez, entender o nosso real sentido na vida das pessoas e nosso papel no mundo. Somos seres tão materialistas que não damos conta do que a gente não toca. A gente não toca o amor, e por isso nunca vamos entender a profundidade desse sentimento. Nós paramos no que fisicamente ele nos oferece. A gente troca a felicidade plena pelo prazer de segundos, por aparências, por coisas materiais. Quando vamos perceber que somos muito maiores que isso?

Nóis se cruzemo na espiral da vida
Mais de uma vez eu tenho consciência
De que na vida não tem coincidência, ai, ai
Nóis se gostemo e se tornemo amigo
Mir música cantemo pros nossos ouvidos
Os lás e os bemóis acordes dissonando
Em perfeita harmonia, ai, ai

Em 1984, Luli e Lucina presentearam a música com a composição de Êta Nóis, que com certeza é a maneira mais pura, simples e sem rodeios para traduzir tudo que eu esteja enrolando com esse texto. Eu poderia trocar todas essas minhas palavras pedindo para que vocês apenas ouvissem essa canção e pensassem sobre a profundidade e complexidade do sentimento que essa letra expõe. É coisa para quem tem a alma desperta.

Com certeza Luli e Lucina não são artistas de quem o grande público tenha tido a oportunidade da apresentação, mas também não sei se boa parte dessas pessoas teriam consciência e grandeza para entende-las. Imagina se as pessoas se dariam conta do amor vivido na plenitude dessas duas figuras. Não sei se somos merecedores disso diante da nossa cegueira emocional e de todas as regras cagadas por essa sociedade doente a qual estamos inclusos. Vivemos nosso próprio ensaio sobre a cegueira. Mesmo assim, canções interpretadas por vozes famosas como Nana Caymmi, Rolando Boldrim e principalmente Ney Matogrosso nos compartilharam a poesia de Luli e Lucina. Ney deu voz para as canções Fala, Bandoleiro, Coração Aprisionado, Êta Nóis, Bugre, Me Rói, Pedra de Rio e O Vira, entre tantos outros sucessos.

Mas um dia chegou e nóis desprivinido
Caímo no chão como dois inimigo
Nos batendo, estropiando
Destruindo o construído
No fundo do tacho um gosto de fel
Mas um dia as abeias se vortam todinha
No milagre da lida, ai, o amor vira mel

É bem verdade que a gente nunca vai saber o porquê algumas pessoas passam por nós e de certa maneira nos moldam, nos curam e muitas vezes abrem feridas enormes, mas acima de tudo nos transformam. Como já diria Heráclito “tudo flui enquanto resultado da tensão contínua dos opostos em luta", nada acontece para que nós continuemos os mesmos. As pessoas passam, mas as transformações ficam em nós. Nada é à toa, nada é por coincidência. Isso é amor profundo, é sentimento que transforma, e por isso tudo vale a pena, até a dor. É amor para quem não tem a alma apequenada. É amor para quem tem entendimento. 

domingo, 18 de dezembro de 2016

Ibeyi| O que é para ser simplesmente acontece


Em meio a um mundo vazio alguns tem a sorte de encontrar pessoas que as fazem viver em uma ilha fora do caos. O amor nos põe em uma bolha e nos faz pensar que estamos protegidos contra todos os males que afetam a sociedade. O amor nos faz pensar que estamos curados da insanidade, que nos livramos dos medos que tomam a mente, que somos únicos. A cultura dos contos de fadas nos vendeu a ideia de que o amor vem etiquetado como peça única, produto exclusivo.

Aí é onde mora nossa quebrada de cara. Pensamos no amor como um artigo de luxo feito sob medida para nossos egos feridos, um verdadeiro casaco de pele para aquecer nossa alma fúnebre. Grande bosta. Quando nos deparamos com a realidade da imperfeição das pessoas com as quais nos envolvemos é onde começamos a perceber que as notas da música são mais dissonantes do que pareciam antes. É onde se separam os amantes dos loucos.

Sabe quando é que a gente realmente descobre que ama alguém? Cada um pode ter sua experiência pessoal, mas acho difícil não se dar conta do amor quando tudo parece mais adverso. Na adversidade, quem está ali só por uma questão física e efemeridades vai pegar logo o beco. Se você está com alguém pelas supostas “qualidades” da pessoa, então descobrir a falta delas vai te fazer correr.

Mas quando a gente resolve engolir nossas vaidades apenas para poder seguir em frente, é porque já não nos resta mais nada, apenas o amor e a vontade de fazer dá certo. Quando a gente descobre que a relação não é o modelo exclusivo que você idealizou, porém não consegue mais ver sua vida de outro jeito, então baixar a guarda é a única solução.

Welcome to my earth
It's a crying shame
We have built a foolish world
Busy fighting, cruelly lying and denying

Eu sou uma fã incurável do trabalho das Ibeyi, elas estão sempre aparecendo por aqui, até porque esse blog não se trata de outra coisa além do que o próprio nome diz: meus sons diários, ou seja, é o que eu ouço no meu dia a dia regado a minhas emoções e meu estado de espirito. A música é a melhor tradução para os momentos. Eu falo melhor quando eu deixo as músicas falarem por mim. Enfim, Naomi e Lisa já foram a minha voz em outras oportunidades, mas Ghost tem martelado, mais uma vez, na minha mente como a minha própria consciência me pedindo para seguir. 

É na iminência de perder que a gente descobre o quanto ama. A gente chora, esperneia, se desespera e esquece do senso do ridículo. A gente sente medo. Talvez seja um dos poucos momentos na vida que a gente permite que nos vejam sem nossa armadura contra a fragilidade. Não é o medo de perder pela simples e efêmera posse, mas a sensação da perda do medo. O amor nos faz sentir como se pudéssemos andar de peito aberto e nada poderia nos atingir.

My ghosts are not gone
They dance in the shade
And kiss the black core of my heart
Making words, making sounds, making songs

Quase sempre os problemas entre nós e a pessoa amada são os fantasmas. Não os fantasmas da ficção, mas as inseguranças, pessoas, bens, desejos que nos prendem e cegam a ponto de não enxergarmos o quanto poderíamos estar vivendo a leveza de uma relação apartada de todas as coisas tóxicas que podem nos afetar. As dúvidas moram na linha tênue entre nossa felicidade e nossa desgraça.

É onde o amor aparece. Se mesmo em meio a todas as forças contrárias você ainda consegue querer tirar forças do fundo da sua alma para lutar por quem você ama, então tudo vale a pena. As vezes a gente precisa dar uma chance para nós mesmos e tentar continuar a história escrevendo novas linhas em meio ao mesmo papel que parece desgastado. Como eu sempre digo a mim mesma, amar em tempos difíceis é revolução.

Now you can feel my heart spinning
You turn my whole life around
I want to write a new beginning
Let go of the ghosts
Let dreams and hopes fly
And give our love another try
Should we just let it be?


Cada um tem suas próprias experiências, e muitas vezes é cobrar demais de alguém para se refazer em meio ao caos, mas se é por amor pense duas vezes, três vezes se for preciso, mas siga em frente. O único compromisso que precisamos ter na vida é com a nossa felicidade plena, mas não com as coisas efêmeras e que se esfacelam durante a vida. Se for necessário, engula seu orgulho ferido e recomece, isso é um favor para si mesmo. E acredito que é sempre bom lembrar que, o amor nos cura.