sábado, 24 de dezembro de 2016

Luli e Lucina| Coincidência é como os céticos tratam o destino


Como historiadora, a relação do espaço/tempo é sempre algo tão corriqueiro na minha mente, nas reflexões, nas indagações e desconstruções. É também da minha lida a eterna problematização dos fatos. Mas tem coisas que a nossa razão humana não pode dar contar, explicar ou tomar nota. A gente só aceita e contempla, não fica fazendo pergunta, só vive. Aprendemos que a reposta para alguns acontecimentos simplesmente é aceitar e contemplar a beleza do presente que a vida nos oferece.

Vocês acreditam em coincidência? Eu particularmente nunca me dei ao luxo de acreditar nela. Eu acho que sou uma sonhadora, uma eterna idealista. Não consigo pensar que a grandeza dos sentimentos que vivemos seja algo randômico, passageiro e isolado. Talvez eu alimente a loucura em mim que tudo isso faz parte de algo muito maior e que nem cabe a nós entendermos. Nossa visão humana é tão limitada, é tão pequena. A gente resume coisas e pessoas a momentos, a valores e a utilidade delas. Nós não merecemos, talvez, entender o nosso real sentido na vida das pessoas e nosso papel no mundo. Somos seres tão materialistas que não damos conta do que a gente não toca. A gente não toca o amor, e por isso nunca vamos entender a profundidade desse sentimento. Nós paramos no que fisicamente ele nos oferece. A gente troca a felicidade plena pelo prazer de segundos, por aparências, por coisas materiais. Quando vamos perceber que somos muito maiores que isso?

Nóis se cruzemo na espiral da vida
Mais de uma vez eu tenho consciência
De que na vida não tem coincidência, ai, ai
Nóis se gostemo e se tornemo amigo
Mir música cantemo pros nossos ouvidos
Os lás e os bemóis acordes dissonando
Em perfeita harmonia, ai, ai

Em 1984, Luli e Lucina presentearam a música com a composição de Êta Nóis, que com certeza é a maneira mais pura, simples e sem rodeios para traduzir tudo que eu esteja enrolando com esse texto. Eu poderia trocar todas essas minhas palavras pedindo para que vocês apenas ouvissem essa canção e pensassem sobre a profundidade e complexidade do sentimento que essa letra expõe. É coisa para quem tem a alma desperta.

Com certeza Luli e Lucina não são artistas de quem o grande público tenha tido a oportunidade da apresentação, mas também não sei se boa parte dessas pessoas teriam consciência e grandeza para entende-las. Imagina se as pessoas se dariam conta do amor vivido na plenitude dessas duas figuras. Não sei se somos merecedores disso diante da nossa cegueira emocional e de todas as regras cagadas por essa sociedade doente a qual estamos inclusos. Vivemos nosso próprio ensaio sobre a cegueira. Mesmo assim, canções interpretadas por vozes famosas como Nana Caymmi, Rolando Boldrim e principalmente Ney Matogrosso nos compartilharam a poesia de Luli e Lucina. Ney deu voz para as canções Fala, Bandoleiro, Coração Aprisionado, Êta Nóis, Bandoleiro, Bugre, Me Rói, Pedra de Rio e O Vira, entre tantos outros sucessos.

Mas um dia chegou e nóis desprivinido
Caímo no chão como dois inimigo
Nos batendo, estropiando
Destruindo o construído
No fundo do tacho um gosto de fel
Mas um dia as abeias se vortam todinha
No milagre da lida, ai, o amor vira mel

É bem verdade que a gente nunca vai saber o porquê algumas pessoas passam por nós e de certa maneira nos moldam, nos curam e muitas vezes abrem feridas enormes, mas acima de tudo nos transformam. Como já diria Heráclito “tudo flui enquanto resultado da tensão contínua dos opostos em luta", nada acontece para que nós continuemos os mesmos. As pessoas passam, mas as transformações ficam em nós. Nada é à toa, nada é por coincidência. Isso é amor profundo, é sentimento que transforma, e por isso tudo vale a pena, até a dor. É amor para quem não tem a alma apequenada. É amor para quem tem entendimento. 

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