domingo, 6 de agosto de 2017

Goo Goo Dolls| Quando a saudade tem cheiro


Nas duas últimas semanas eu tenho tentado digerir uma série de sentimentos e experiências. Como já havia dito antes, provavelmente a música é o que me ajuda a organizar essas ideias. Às vezes eu acho que elas não ajudam essa organização pondo ordem, pois parecem remexer mais com tudo que já estava inquieto. Mas elas ajudam a encontrar palavras, a dar sentido poético a um mar de abstração. É como ouvir algo e pensar “É isso! É exatamente isso que eu estou sentindo. ”

Eu tenho 25 anos, mas posso dizer que já deia volta no quarteirão da vida usando salto alto. Essa vida já foi dolorosa um bocado. A pior coisa que existe é a gente se acostumar com a dor, e simplesmente achar ela normal e agradecer pelas pequenas alegrias esporádicas. Já tive perda que levou parte de mim junto, já passei por desilusões e a minha cara já foi quebrada e rebocada algumas vezes, mas nada nunca foi o suficiente para me fazer acreditar menos no amor e nas pessoas. É algo quase instintivo e acho que o dia que eu perder isso já não serei mais eu mesma.

E em um misto de entrega e medo de me machucar eu vou vivendo. Tudo muito a flor da pele. Nunca soube medir nada. Sempre fui do muito temendo ser insuficiente. E esse muito sempre teve pressa, uma rapidez e um movimento de um sentimento que não cabe dentro de mim. Se reprimir, morro sufocada. E para não morrer, escrevo.

Se o amor não for querer viver no cheiro do cabelo de alguém, porque isso cheira a um lar para você eu não sei o que é amor. Amor é um abraço que não te deixa ir, é um beijo que te faz esquecer a dor. Amor é chegar em um aeroporto lotado e teus olhos acertarem diretamente naquele par de olhos verdes nos quais você mergulharia. O amor te tira da inercia, te coloca em movimento. O meu amor me tirou da minha zona de conforto, girou meu mundo em 180º e me fez sentir a vida novamente.

Sendo assim, eu não me importo com que pode acontecer na semana que vem, pode ser que algumas coisas não surjam para ficar. Pessoas não são souvenirs, não podemos prende-las. Se um dia elas precisarem ir, elas irão e isso não fará que todo o amor seja menor. O amor é a capacidade que o outro tem de melhorar sua vida pelo simples fato de existir. Por isso mesmo não existe arrependimento em amar, porque tudo que de fato é verdadeiro vale a pena.

 Certa vez, uma grande amiga me disse que eu precisava abrir mão do amor platônico. Eu a entendi. Ela temia que eu me machucasse, porque ela se referia ao amor platônico do medievo, aquele amor Tristão e Isolda. O amor que dói pela ausência.  Mas não posso mudar minha natureza, por mais que isso possa me custar algumas lágrimas hipoteticamente.

Na semana passada eu fiz uma playlist com algumas canções que se tornaram uma trilha para minhas férias. Todas elas tinham algo em comum, foram músicas que cansei de ouvir durante a infância e adolescência e que me reencontraram em meio a um lugar onde eu me reencontrei com um sentimento muito especial. Uma música em especial eu deixei de fora porque o que ela me causa não caberia em poucas linhas daquela outra publicação.

Em 1997, a produção do filme Cidade dos Anjos chamou os caras do Goo Goo Dolls para fazer parte da trilha sonora. John Rzeznik, líder da banda, escreveu uma canção inédita para essa soundtrack. Até então a banda fundada por Rzeznik seguia os passos do movimento Grunge e fazia um som típico do Rock alternativo das bandas americanas surgidas no final dos anos 80 e começo dos anos 90.

Por capricho do destino, foi com Iris que a banda alcançou a fama a nível mundial. Eu digo capricho porque Iris é quase uma balada romântica, algo entre o indie rock e o soft rock (também conhecido como adult contemporary). A letra segue o contexto do filme, onde o personagem principal se vê entre o amor e a eternidade. O nome da música seria uma referência a Iris DeMent, uma cantora folk norte-americana que fez sucesso nos anos 90. No embalo do sucesso, o Goo Goo Dolls incluiu a música no álbum Dizzy Up the Girl em 1998.

And I'd give up forever to touch you
'Cause I know that you feel me somehow
You're the closest to heaven that I'll ever be
And I don't want to go home right now

Eu procrastinei para escrever esse texto, e agora que estou aqui sentada tentando fazer minhas palavras terem algum sentido percebo que não era apenas uma questão de preguiça. É que tudo ainda tá muito sensível. Então desde já me perdoem, eu não sei se esse texto de fato vai fazer sentido para vocês, mas pra mim ele é uma tentativa de descomprimir uma gama de emoções que estão abarrotadas aqui dentro.

O amor nos é apresentado de diversas formas. A gente pode se preparar a vida toda ou simplesmente ignorar a sua existência, mas se tiver de ser, não tem racionalidade certa. Vem de onde você menos espera. Do jeito que você menos pensa. Para mim veio aleatoriamente, em uma mensagem despretensiosa, em um dia qualquer.

And I don't want to go home right now
And all I can taste is this moment
And all I can breathe is your life
And sooner or later it's over
I just don't want to miss you tonight

Eu comecei pensando sobre amor, mas no momento todo o amor do mundo que existe em mim se depara com uma convidada indigesta que costuma acompanha-lo. E eu faria qualquer coisa que fosse possível para não ter que a sentir.


Saudade é uma palavra de sentido profundo e não traduzível. A gente até tenta explicar, expressar, mas não dá. Saudade é uma palavra que mesmo não se traduzindo para outro idioma pode, ainda sim, ter endereço, cheiro e voz. Saudade pode ter nome e sorriso. Saudade pode tá lá do outro lado do continente, ou dentro da gente. Eu tenho saudade e é irremediável. 

1 comentários:

Vicente Melo disse...

Sim, o amor, assim como a saudade e outros substantivos, são os combustíveis de nossa viagem para o infinito interior de nossa busca, de nossa esperança, de nosso paraíso. Dessa viagem nunca desistiremos porque nenhum obstáculo é maior que a dimensão desses combustíveis que fomentam o nosso desígnio, esse mais que o desejo.

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